Chamada até 30/04/2021

Prazo para envio dos trabalhos: 30 de abril de 2021

A partilha do fogo

Em uma resenha de Walter Benjamin, dedicada a El circo (1917) de Ramón Gómez de la Serna, texto surpreendentemente obliterado pela crítica eurocentrada, se afirma que as “idéias mais inauditas e curativas”, as próprias iluminações profanas, vêm de um nada, de um quase nada. Lançando mão desse “quase nada”, em conferência de 2019 dedicada a Benjamin, Raúl Antelo propunha a figura do artista saltimbanco como aquela figura que daria conta, justamente, da nossa própria pobreza.

O saltimbanco é a evidência de uma pura potência de significação, antes das formas e no lugar vazio das forças. Está como que atravessado por um nada, por uma espécie de vazio constituinte do poder ou por um jogo que, longe da função ritualística do trickster (que pressupõe a existência de um laço social, de uma sociedade estruturada à qual ele serve como figura de transgressão), e longe de uma catarse revigorante como a que permitiria o conservadorismo picaresco, vive uma vida póstuma sem ter vivido nunca uma vida viva. Isso quer dizer que o saltimbanco está mais próximo do caráter criatural que o humano adquire no barroco do que dos restos, sempre dignos, constituídos pelas ruínas de monumentos ou pelas peças de um antiquário. É artista da fome antes dos atributos da arte.

Ora, um bufão não é um palhaço, e nem um saltimbanco. Não é do todo ao nada nem do nada ao todo que o bufão transita, mas do nada ao nada. É a imagem de uma escatologia de dupla mão, entre o éskhatos (final) e o skatós (excremento) com que não raramente brinca. O que acontece quando longe de entreter o trono, o bufão passa a ocupá-lo? O que acontece quando as cabeças cortadas não são mais a exceção que faz a regra, nem a vida algo a ser administrado, mas o próprio cerne de um “fazer morrer” que, de acordo com Achille Mbembe, constituiria a necropolítica longe dos centros metropolitanos da bíos?

De que maneira pensar hoje –em tempos de éskhatos que se administram e se vivem a partir da lógica do skatós– a nossa própria pobreza? As condições atuais do trabalho, da técnica e da política nos permitem a iluminação profana de uma pura potência de significação, ou também fomos despojados desse supremo bom gosto que foi eleger entre os nossos próprios pesadelos? O circo, finalmente, pegou fogo ou o fogo se tornou o próprio circo? A merda suplementar ocupou o lugar dos fundamentos e das fundações? As violências privatizadas equivalem ao moderno, e já passado, “monopólio da violência”? Que diferença implicam essas violências?

Nestes tempos de pandemias, de milícias, de negacionismos e de terras planas, é a partir dessas perguntas que a revista Landa abre sua chamada para trabalhos que abordem momentos, nuances e cenas dessa passagem do bio ao necropolítico. Convidamos os interessados a pensar essa passagem nas artes e nas literaturas das Américas todas do mundo que resta.

Trabalhos que não respeitem as normas editoriais não serão aceitos. As normas podem ser consultadas em: http://www.revistalanda.ufsc.br/diretrizes

Os originais deverão ser enviados por correio eletrônico ao endereço: revistalanda@gmail.com

 

Convocatoria para publicación 2021/1

Plazo para el envío de trabajos: 30 de abril de 2021

El reparto del fuego

En una reseña de Walter Benjamin, dedicada a El circo (1917) de Ramón Gómez de la Serna, un texto sorprendentemente obliterado por la crítica eurocentrada, se afirma que “las ideas más inauditas y curativas”, las mismas iluminaciones profanas, vienen de un nada, de un casi nada. Apropiándose ese “casi nada”, en una conferencia de 2019 dedicada a Benjamin, Raúl Antelo proponía al artista saltimbanco como esa figura que, justamente, da cuenta de nuestra propia pobreza.

El saltimbanco es la evidencia de una pura potencia de significación, antes de las formas y en el lugar vacío de las fuerzas. Está como atravesado por un nada, por una especie de vacío constituyente del poder o por un juego que, lejos de la función ritual del trickster (que presupone la existencia de un vínculo social, de una sociedad estructurada a la que sirve como figura de transgresión), y lejos de la catarsis vigorizante que permitiría el conservadurismo picaresco, vive una vida póstuma sin nunca haber vivido una vida viva. Eso quiere decir que el saltimbanco está más cerca del carácter creatural que lo humano adquiere en el barroco que de los restos, siempre dignos, constituidos por las ruinas de monumentos o por las piezas de un anticuario. Es el artista del hambre antes de los atributos del arte.

Un bufón, a su vez, no es un payaso ni un saltimbanco. No es del todo a la nada ni de la nada al todo que un bufón transita, sino de la nada a la nada. Es la imagen de una escatología de doble vía, entre el éskhatos (fin) y el skatós (excremento) con el que no raramente juega. ¿Qué ocurre cuando el bufón pasa a ocupar el trono en vez de simplemente entretenerlo? ¿Qué pasa cuando las cabezas cortadas no son más la excepción que hace la regla, ni la vida algo que simplemente debe administrarse, sino la propia semilla de ese “hacer morir” que, según Achille Mbembe, ordena la necropolítica lejos de los centros metropolitanos de la bíos?

¿De qué manera pensar hoy –en tiempos de éskhatos que se administran y se viven a partir de la lógica del skatós– nuestra propia pobreza? ¿Las condiciones actuales del trabajo, de la técnica y de la política nos permiten la iluminación profana de una pura potencia de significación, o también se nos despojó de ese supremo buen gusto que fue elegir entre nuestras propias pesadillas? ¿El circo, finalmente, está en llamas, o más bien el fuego se transformó en el mismo circo? ¿La mierda suplementaria ocupó el lugar de los fundamentos y de las fundaciones? ¿Las violencias privatizadas equivalen al moderno, y ya pasado, “monopolio de la violencia”? ¿Qué diferencia concreta implican esas violencias?

En estos tiempos de pandemias, de milicias, de negacionismos y de tierras planas, y a partir de estas preguntas, Landa abre su convocatoria a trabajos que aborden momentos, matices y escenas de ese pasaje de lo bio a lo necropolítico. Invitamos a los interesados a pensar esa transición en las artes y en la literatura de las Américas del mundo que nos resta.

No se aceptarán trabajos que no respeten los estándares editoriales. Las normas se pueden consultar en: http://www.revistalanda.ufsc.br/diretrizes

Los originales deben enviarse por correo electrónico a revistalanda@gmail.com

 

Chamada para publicação 2021/2

Prazo para envio dos trabalhos: 10 de agosto de 2021

Errare humanum est

“Errare humanum est” alguém disse em latim e se repetiu infinitas vezes, com não menos conhecidas variações incluindo o coisa-ruim: perseverar no erro é diabólico, de Santo Agostinho a São Bernardo. O provérbio ressurge inclusive na música popular brasileira dos anos 70, na famosa canção homônima de Jorge Ben, fazendo eco às então recentes explorações do espaço extraterrestre da Guerra Fria. De uma maneira ou outra, a frase sempre teve o intuito de consolar a inconsolável humanidade. Mas digamos que o seu melhor atributo consiste no errare e não no humanum, numa certa diabólica errância que refuta um certo humanismo.

Nem ser nem estar, mas errar, errar à vontade, contra o recorrente e maiúsculo Erro da mundialização capitalista, disparado no espaço latino-americano com o colonialismo europeu.

Assim, optamos, optemos por quem tenha optado por errar com minúsculas: são essas poéticas do erro criativo que invocamos aqui nesta Chamada da revista Landa. Da contribuição milionária de todos os erros de Oswald de Andrade ao eterno mal-entendido da fuga para diante de César Aira; das literaturas errabundas e minoritárias de Deleuze e Guattari até o Grupo Erro, desterrado e nosso…

Nestes tempos erráticos e estranhos, e a partir da opção pelo deserto acima mencionada, a revista Landa abre sua chamada para trabalhos que abordem momentos, nuances e cenas desse “escrever errado” que não poucas vezes foi a própria deriva de uma instituição que, como lembrava Georges Bataille, “não é inocente e, culpada, deveria se confessar como tal”.

Trabalhos que não respeitem as normas editoriais não serão aceitos. As normas podem ser consultadas em: http://www.revistalanda.ufsc.br/normas.html

Os originais deverão ser enviados por correio eletrônico ao endereço: revistalanda@gmail.com

 

Convocatoria para publicación 2021/2

Plazo para envío de los trabajos: 10/08/2021

Errare humanum est

Errare humanum est” dijo alguien en latín y lo repitió sin cesar, con variaciones no menos conocidas: perseverar en el error es diabólico, desde San Agustín hasta San Bernardo. El refrán reaparece incluso en la música popular brasileña de los años 70, en la famosa canción homónima de Jorge Ben, haciéndose eco de las entonces recientes exploraciones del espacio extraterrestre de la Guerra Fría. De una forma u otra, la frase siempre ha tenido la intención de consolar a la humanidad inconsolable. Pero digamos que su mejor atributo consiste en el errare y no en lo humanum, en una determinada errancia diabólica que refuta un cierto humanismo.

Ni ser ni estar, sino errar, errar a voluntad, ante el recurrente y capital Error de la globalización capitalista, disparada en el espacio latinoamericano con el colonialismo europeo.

Entonces, optamos, optemos, por los que han elegido errar con minúsculas: en esta convocatoria de Landa, invocamos a las poéticas del error creativo. Desde la contribución millonaria de todos los errores de Oswald de Andrade hasta el eterno malentendido de la huida hacia adelante de César Aira; de las literaturas erráticas y minoritarias de Deleuze y Guattari al Grupo Erro, exiliado y nuestro…

En estos tiempos erráticos y extraños, y desde la opción desértica mencionada, la revista Landa abre su convocatoria a trabajos que aborden momentos, matices y escenas de ese “escribir mal” que no pocas veces fue la deriva de una institución que, como recordaba Georges Bataille, “no es inocente y, culpable, debería confesarse como tal”.

No se aceptarán trabajos que no respeten los estándares editoriales. Las normas se pueden consultar en: http://www.revistalanda.ufsc.br/normas.html

Los originales deben enviarse por correo electrónico a revistalanda@gmail.com